Passar no vestibular costuma ser aquele momento em que o estudante finalmente pensa: “acabou, agora posso respirar”. Só que, para algumas pessoas, o corpo e a cabeça aparentemente não recebem o memorando.
Meses ou até anos de excesso de estudos, pressão por resultados e privação de sono podem fazer com que o esgotamento continue mesmo depois da aprovação. A rotina de cobrança constante e a sensação de que é preciso estar sempre produzindo podem transformar um simples cansaço em um processo prolongado de exaustão.
O chamado burnout acadêmico não necessariamente aparece de uma hora para outra. No começo, os sinais podem parecer apenas consequência daquela rotina intensa de estudos: cansaço persistente, falta de energia e dificuldade para manter o ritmo.
Com o passar do tempo, porém, podem surgir problemas de concentração, irritabilidade, perda de motivação, afastamento das atividades acadêmicas e sensação de incapacidade diante das demandas.
Esgotamento pode atravessar a mudança para a universidade
Uma revisão sistemática publicada no Journal of Adolescence, que reuniu 48 estudos longitudinais sobre burnout escolar entre adolescentes, apontou consequências como menor envolvimento com os estudos, prejuízos no desenvolvimento da identidade e menor satisfação com a vida.
O trabalho também identificou a exaustão como uma das primeiras dimensões do burnout a se desenvolver, reforçando a importância de observar os sinais antes que o quadro se prolongue.
Nesse cenário, a preparação para o vestibular pode fazer parte de uma trajetória mais longa de exposição a demandas acadêmicas.
Um estudante que passa anos associando seu desempenho ao próprio valor pessoal e abrindo mão constantemente do descanso pode chegar à universidade sem conseguir simplesmente apertar o botão de “modo equilibrado”. Ser aprovado muda o ambiente, mas não necessariamente o padrão de comportamento.
Na faculdade, a pressão pode continuar
A aprovação também não representa necessariamente o fim da sobrecarga.
Na universidade, entram em cena provas, trabalhos, estágios, atividades extracurriculares e expectativas relacionadas à carreira. Ou seja, a famosa fase em que alguém promete que “depois da aprovação melhora” pode precisar de algumas atualizações.
Um estudo publicado na revista Contemporary Educational Psychology acompanhou estudantes durante um semestre e identificou aumento linear dos sintomas de burnout.
Os autores também discutem evidências de pesquisas anteriores que observaram alterações em dimensões como exaustão e cinismo durante períodos de dois a quatro anos de formação universitária.
Para Pedro Guersoni, doutorando em Desenvolvimento Humano, especialista em Análise do Comportamento Aplicada e professor da Universidade São Judas, a permanência desse padrão merece atenção.
“Quando o estudante passa a vivenciar a rotina acadêmica de forma predominantemente exaustiva, o problema deixa de estar restrito a uma prova ou a um semestre. A manutenção desse padrão de cobrança e pouca recuperação pode contribuir para que o sofrimento acompanhe diferentes momentos da trajetória educacional”, explica.
Como diferenciar cansaço de burnout?
Sentir cansaço depois de uma sequência de provas ou de um período especialmente intenso de estudos pode fazer parte da rotina acadêmica.
O sinal de alerta aparece quando a exaustão deixa de ser pontual e começa a interferir de forma constante na vida do estudante.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
sensação persistente de exaustão;
perda prolongada de motivação;
dificuldade de concentração;
irritabilidade;
alterações no sono;
afastamento dos estudos;
perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas;
sensação frequente de incapacidade diante das demandas.
Mas atenção: apresentar esses sinais não significa, isoladamente, que o estudante tenha burnout.
A avaliação de um profissional é importante para entender o que está acontecendo e diferenciar o esgotamento de outras condições.
Afinal, nem todo “não aguento mais abrir o PDF da disciplina” significa burnout. Às vezes, significa apenas que você abriu o PDF da disciplina pela quinta vez no mesmo dia. Mas se o sofrimento é persistente e está afetando sua vida, vale procurar ajuda.
Descanso também faz parte da preparação
Uma rotina sustentável de estudos não precisa ser construída exclusivamente em torno da quantidade de horas diante dos livros.
Sono adequado, pausas, atividade física, lazer e convivência social também fazem parte do cuidado com a saúde.
Familiares e educadores podem contribuir evitando apresentar a aprovação como a única medida de sucesso. Da mesma forma, momentos de descanso não devem ser automaticamente tratados como falta de dedicação.
Porque, sim, descansar também faz parte da preparação. O cérebro não funciona no modo “24 horas de produtividade” só porque alguém colocou uma meta no planner.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na Scientific Reports, que reuniu 44 estudos com 26,5 mil universitários, encontrou prevalências elevadas de exaustão emocional, cinismo e baixa realização pessoal entre os estudantes avaliados.
Universidade também pode ajudar
A prevenção não depende apenas do estudante.
As instituições de ensino também podem criar espaços de acolhimento e acompanhamento para identificar sinais de sofrimento ao longo da formação.
Na Universidade São Judas, por exemplo, o Centro Integrado de Saúde (CIS) oferece serviços voltados à atenção à saúde da comunidade acadêmica.
A preocupação é especialmente importante porque o ciclo de cobrança pode continuar mesmo depois da aprovação.
A entrada no Ensino Superior muda o tipo de demanda, mas não necessariamente reduz a pressão.
Quando o cansaço deixa de ser uma resposta temporária a uma fase intensa e passa a dominar a rotina, procurar ajuda pode ser um passo importante para interromper esse ciclo.
Porque entrar na faculdade para realizar um sonho e passar os próximos anos funcionando no modo “bateria crítica” definitivamente não deveria ser o plano de carreira.