Para Lorena Ramos Pontes, 19 anos, o ambiente hospitalar nunca foi exatamente uma novidade. Nascida e criada em Piracicaba, no interior de São Paulo, ela cresceu acompanhando a rotina da mãe, que trabalha como técnica de enfermagem há quase 25 anos.
Foi esse contato desde cedo com a área da saúde que despertou em Lorena o desejo de cuidar de outras pessoas. Hoje, ela está no segundo semestre de Medicina na Anhembi Morumbi, em Piracicaba.
E chegar até aqui não foi exatamente aquele roteiro “estudei, fiz uma prova e deu certo”. Lorena encarou 26 processos seletivos, conseguiu 11 aprovações e conquistou uma bolsa de 100% em Medicina.
Da técnica de enfermagem à futura médica
Lorena conta que sempre teve o apoio da família para estudar.
Quando era criança, dizia à mãe que também queria ser técnica de enfermagem. A resposta, porém, ajudou a ampliar seus planos.
“Quando era criança, eu falava para minha mãe que também queria ser técnica de enfermagem, mas minha mãe sempre me dizia que eu tinha mais oportunidades para ir além do que ela conseguiu chegar. Então comecei a enxergar a possibilidade de me tornar médica.”
Preocupada com o futuro da filha, a mãe pesquisava as melhores opções de escolas públicas de Piracicaba. Mesmo sem condições de pagar uma escola particular, conseguiu garantir que Lorena tivesse acesso a um bom ensino.
O pai também teve papel importante. Segundo Lorena, ele sempre acreditou que a filha se tornaria médica, mesmo quando a família ainda não sabia se essa oportunidade realmente seria possível.
Uma rotina que começava às 4h30
Durante o ensino médio, Lorena prestou provas para o Instituto Federal e para a Etec. Foi aprovada nas duas opções, mas escolheu o Instituto Federal pela qualidade do ensino, mesmo sabendo que teria pela frente uma rotina pesada de deslocamento.
A escola ficava a aproximadamente 12 quilômetros de sua casa e, dependendo do trânsito, ela podia passar de três a cinco horas por dia no transporte público.
No terceiro ano, começou a trabalhar como jovem aprendiz. A rotina passou a começar às 4h30.
Depois do trabalho, seguia de fretado para a escola e estudava até as 18h. Em seguida, ainda passava pela academia antes de chegar em casa por volta das 21h.
Sim, enquanto muita gente estava descobrindo como sobreviver ao ensino médio, Lorena já estava praticamente fazendo um estágio não remunerado em “como ter 48 horas dentro de um dia”.
Durante as férias, ela trabalhou em um shopping das 12h às 22h. Quando as aulas voltaram, permaneceu no emprego aos fins de semana e começou a vender trufas na escola.
Essa experiência profissional tão cedo fez com que Lorena adiasse os planos de entrar na faculdade.
Aos 16 anos, receber cerca de dois salários mínimos, sem precisar arcar com contas ou aluguel, fez com que ela enxergasse naquela rotina uma possibilidade de independência financeira.
“Gostar muito da independência financeira e da rotina fez eu achar que era algo sustentável a longo prazo e fui deixando a faculdade para depois”, conta.
Um professor ajudou a mudar o rumo
A mudança de perspectiva veio depois de conversas frequentes com um professor de matemática chamado Alexandre.
Ele costumava reservar entre 10 e 15 minutos das aulas para falar sobre a importância da educação e da persistência.
“Toda vez, ele guardava uns 10 ou 15 minutos para dizer que o ensino salva e que a gente não podia desistir dos nossos sonhos, porque o ‘subemprego’, como ele chamava, ia fazer a gente perder essa vontade”, relata Lorena.
Com o tempo, ela percebeu que estava fazendo planos baseados no salário que ainda receberia, gastando com futilidades e deixando os estudos cada vez mais para depois.
A Medicina continuava sendo adiada.
Como havia tido um bom desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no ano anterior, Lorena imaginou que seu aprendizado continuaria crescendo mesmo sem estudar.
Spoiler: não continuou.
Quando recebeu a nota do Enem no terceiro ano, veio a decepção. O resultado representava apenas 20 pontos a mais em relação à prova anterior.
Foi então que decidiu parar de trabalhar e dedicar-se aos estudos.
O desafio era aprender a estudar
Depois de deixar o trabalho, Lorena descobriu outro problema: ela precisava aprender a estudar.
Um segundo professor de matemática, Paulo, ajudou nesse processo. Em um curso eletivo de matemática básica, ele insistia que os alunos precisavam deixar o ego de lado, reconhecer as próprias dificuldades e fazer perguntas.
A experiência levou Lorena a procurar um cursinho on-line e reorganizar completamente sua rotina para se preparar para os vestibulares.
O resultado veio depois de muito teste, erro, acerto e provavelmente uma quantidade pouco saudável de questões de matemática.
Ao todo, Lorena participou de 26 processos seletivos e conseguiu 11 aprovações.
A aprovação em Medicina foi a penúltima e veio acompanhada de uma bolsa de 100%.
Como considerava o curso distante de sua realidade, ela chegou a tentar outras áreas, como engenharia, biomedicina e psicologia.
O problema é que nenhuma delas despertava nela o mesmo desejo pela Medicina.
Quando a Medicina parecia não ser para ela
Outro obstáculo foi a falta de referências.
Vinda de escola pública e de uma família de baixa renda, Lorena conta que não encontrava estudantes com uma trajetória semelhante à sua que tivessem conseguido chegar à Medicina.
Isso alimentava a impressão de que o curso não era uma possibilidade real para ela.
A aprovação mudou essa percepção.
Lorena descreve a sensação como tirar das costas uma mochila pesada que ela nem sabia que carregava.
Durante o período dos vestibulares, ela escrevia diariamente em um diário sobre as dúvidas relacionadas ao futuro: se precisaria fazer cursinho novamente, voltar a trabalhar, mudar de cidade ou escolher qual profissão seguiria pelo resto da vida.
Hoje, olhando para aquelas anotações, ela tem certeza de que está vivendo um sonho que desejou por muito tempo.
“Até hoje eu sinto que estou vivendo um sonho na faculdade. Uma vez, vi um ditado que falava sobre como a gente quer muito viver as coisas boas, mas nem sempre pensa em tudo o que precisa enfrentar para chegar até elas. E é isso: tem dia em que eu passo vergonha no estágio, enfrento situações difíceis, mas penso que, há um ano, eu nem tinha certeza de que estaria aqui, estagiando.”
Medicina vai muito além da sala de aula
Na faculdade, Lorena decidiu continuar em Piracicaba por uma questão financeira.
Como não precisou se mudar nem pagar aluguel, conseguiu reduzir os custos da graduação.
Mesmo estando apenas no segundo semestre, ela já teve experiências no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), em clínica e em Unidade de Pronto Atendimento (UPA), além de participar de trabalhos voluntários.
Para Lorena, a formação médica também depende da iniciativa dos próprios estudantes.
Os estágios obrigatórios acontecem uma vez por semana, mas outras experiências dependem da busca dos alunos por oportunidades.
E foi justamente em uma dessas experiências acadêmicas que aconteceu um dos momentos mais marcantes de sua formação.
Quando o conteúdo da aula ganhou outro significado
Durante uma aula, Lorena se deparou com um caso fictício de um paciente que tinha a mesma doença e a mesma idade que seu pai tinha quando morreu, em 2021.
Enquanto os colegas discutiam a doença, o tratamento e as medicações, Lorena começou a pensar no sofrimento daquele paciente e em como seria viver com aquela condição.
A experiência fez com que ela refletisse sobre uma diferença fundamental na formação médica: existe uma coisa em estudar uma doença e outra completamente diferente em enxergar a pessoa que existe por trás dela.
A lembrança também se conecta ao desejo de levar essa perspectiva para sua formação.
Para Lorena, não ter o pai para acompanhar a realização do sonho de ver a filha médica já representa uma ausência importante.
O episódio em sala reforçou nela a vontade de não perder de vista o paciente enquanto aprende sobre a doença.
Um sonho que ainda está sendo vivido
Hoje, mesmo diante das dificuldades da graduação, Lorena afirma que continua vivendo um sonho.
Sua mãe, Maria Aparecida Ramos Sabará, e suas irmãs são a base que a ajuda a continuar seguindo esse caminho.
Para quem também pretende enfrentar a maratona dos vestibulares, ela deixa um conselho:
“Muito vale o que muito custa.”
A estudante acredita que a fase de preparação passa, enquanto a profissão permanece.
E deixa uma última mensagem para quem está quase desistindo:
“Não desistam porque está acabando.”
Porque, depois de 26 vestibulares, 11 aprovações e uma bolsa integral, Lorena provavelmente entende um pouco sobre persistência. E, convenhamos, desistir depois de tudo isso seria deixar o plot twist para a última página.