MPF quer apertar o cerco no ProUni: MEC pode ser obrigado a criar bancas para confirmar cotas raciais

Entrar no ProUni já exige atenção aos documentos. Agora, esse processo pode ganhar uma nova etapa. O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação para que o Ministério da Educação (MEC) regulamente mecanismos de verificação das autodeclarações de candidatos cotistas que concorrem às bolsas do programa.

Segundo o órgão, a medida busca garantir que as bolsas reservadas cheguem, de fato, aos seus legítimos beneficiários.

MPF pede regulamentação para verificação das autodeclarações

O Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública para que o MEC estabeleça regras obrigatórias de heteroidentificação — avaliação realizada por uma banca — para candidatos negros (pretos e pardos) e mecanismos de comprovação de pertencimento étnico-comunitário para candidatos indígenas que disputam bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni).

De acordo com o MPF, a ausência de critérios nacionais e padronizados acaba dificultando a aplicação correta da política de cotas.

Em outras palavras: não basta existir a regra. Sem um padrão de fiscalização, cada instituição pode acabar seguindo caminhos diferentes — e aí a bagunça faz matrícula antes do aluno.

O que o MPF quer que o MEC faça?

Na ação, o MPF solicita que a União regulamente esses mecanismos em até 90 dias.

Entre as exigências propostas estão:

  • criação de comissões de heteroidentificação em todas as instituições participantes do ProUni;
  • bancas compostas por número ímpar de integrantes;
  • membros com reputação ilibada, capacitação na área étnico-racial e representatividade plural de gênero e raça/cor;
  • utilização exclusiva do critério fenotípico para avaliação de candidatos negros, considerando as características físicas visíveis no momento da análise;
  • garantia do contraditório e da ampla defesa durante o procedimento.

Regras específicas para candidatos indígenas

Além da heteroidentificação para candidatos negros, o MPF também pede que candidatos indígenas passem por uma verificação documental complementar.

Segundo a proposta, essa análise deverá ser realizada por uma comissão formada por pessoas com reconhecido conhecimento na área, composta majoritariamente por integrantes de povos indígenas.

Ação prevê multa em caso de descumprimento

O documento também solicita que a Justiça determine multa diária de R$ 10 mil caso a regulamentação não seja cumprida dentro do prazo estabelecido.

Recomendação já havia sido feita em 2025

Essa não é a primeira vez que o assunto chega ao MEC.

Em julho de 2025, o MPF recomendou ao Ministério da Educação e às instituições privadas de ensino superior do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro que criassem bancas de heteroidentificação para os processos seletivos.

Na ocasião, parte das universidades respondeu que a definição dessas regras cabe ao MEC, por ser o órgão responsável pela regulamentação nacional do programa.

Como a situação permaneceu sem uma norma específica, o MPF decidiu levar o caso à Justiça.

Objetivo é fortalecer a política de cotas

Segundo o Ministério Público Federal, a regulamentação busca tornar mais efetiva a política de ações afirmativas no ProUni.

Para o órgão, a criação de critérios uniformes ajuda a garantir que as bolsas destinadas às cotas sejam ocupadas por candidatos que realmente atendam aos requisitos previstos em lei, além de reduzir possíveis fraudes no processo seletivo.

A ação civil pública foi assinada pelos procuradores da República Enrico Rodrigues de Freitas, Fabiano de Moraes e Aline Mancino Caixeta e tramita sob o número 5050681-66.2026.4.04.7100.

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