A estudante de Direito Lilia Grazielly Correia da Silva continuará em prisão domiciliar após o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) manter a medida cautelar contra ela. A jovem é acusada de integrar uma organização criminosa especializada em estelionatos eletrônicos — porque aparentemente o “networking” dela foi parar em um lugar bem menos acadêmico do que uma sala de aula.
A decisão foi tomada pela Quarta Câmara Criminal do TJMT, em julgamento realizado no último dia 18. Lilia, que já foi estagiária do Poder Judiciário, é investigada por supostamente utilizar informações às quais teve acesso durante sua passagem pelo serviço público para alimentar o esquema criminoso.
Prisão domiciliar aconteceu por falta de vaga no sistema prisional
Lilia foi colocada em prisão domiciliar após permanecer detida indevidamente na Delegacia de Nova Olímpia, já que não havia vaga disponível no sistema prisional feminino.
Ou seja: além de toda a investigação envolvendo os supostos golpes, a situação ainda esbarrou em um velho problema estrutural do sistema prisional. A prisão domiciliar foi determinada diante dessa omissão estrutural do Estado.
Golpes usavam redes sociais, anúncios falsos e tecnologia para alterar voz
Segundo as investigações apresentadas no processo, Lilia faria parte de um grupo que atuava principalmente pelas redes sociais.
Os criminosos utilizavam perfis falsos e anúncios fraudulentos de veículos no Facebook para atrair possíveis vítimas. Depois, entrava em cena a tecnologia: chamadas telefônicas com alteração de voz eram usadas para que os integrantes se passassem por gerentes de bancos.
Porque, aparentemente, hoje em dia até o golpe ganhou atualização de software.
De acordo com os autos, Lilia teria participação ativa na operação. Ela seria responsável pela captação de vítimas e utilizaria um perfil falso em aplicativos de mensagens para organizar listas de pessoas que seriam posteriormente contatadas.
Ex-estagiária do Judiciário é investigada por suposto uso de informações privilegiadas
Um dos pontos de maior atenção na investigação é justamente a passagem de Lilia pelo serviço público.
Segundo o processo, ela foi ex-estagiária do Fórum da Comarca, onde trabalhou no ambiente interno do Poder Judiciário até novembro de 2025.
A investigação aponta que, em tese, ela teria utilizado o acesso institucional obtido durante esse período para repassar informações a organizações criminosas e contribuir para as atividades ilícitas.
O processo registra que ela está sob investigação por, supostamente, “repassar ilicitamente informações a organizações criminosas”, utilizando seu acesso institucional para alimentar o esquema.
Organização tinha mais de 160 pessoas e até sistema de bonificação
As investigações apontam que a organização criminosa possuía uma estrutura considerada profissionalizada.
O grupo virtual reunia mais de 160 pessoas, que seguiam regras próprias e contavam até com mecanismos de punição e bonificação.
Os golpes identificados atingiram vítimas em cinco estados brasileiros:
- Paraná;
- Paraíba;
- Minas Gerais;
- Rio de Janeiro;
- Mato Grosso.
Até o momento, foram identificados sete crimes, que provocaram um prejuízo superior a R$ 270 mil.
Defesa alegou que prisão era desproporcional
A defesa de Lilia recorreu ao Tribunal argumentando que a prisão seria desproporcional e que não existiriam elementos concretos suficientes para justificar a manutenção da medida.
Os advogados também sugeriram a utilização de tornozeleira eletrônica ou outras medidas cautelares, destacando que a acusada é primária e possui bons antecedentes.
Mas os magistrados não compraram a ideia.
A Corte decidiu manter a custódia e rejeitou a substituição por medidas cautelares mais brandas, considerando a existência de risco de reiteração delitiva.
Novas provas digitais pesaram na decisão
A relatora do caso, magistrada Henriqueta Lima, afirmou que a descoberta de novos fatos e provas digitais em um processo autônomo justificou o restabelecimento da prisão, mesmo depois de Lilia ter conseguido liberdade em investigações anteriores.
Entre os elementos encontrados estão registros que, segundo a investigação, indicariam uma atuação direta e organizada no grupo.
Ela teria funções previamente definidas, incluindo:
- contato com diversas vítimas em um curto período;
- utilização da identidade falsa “Liliane Corrêa”;
- orientação para que vítimas acessassem links fraudulentos;
- preocupação com denúncias;
- bloqueio de contas de WhatsApp;
- troca de chips;
- exclusão de áudios;
- recebimento de parte dos valores obtidos nos golpes.
Acusada teria atuado diretamente no contato com vítimas
Segundo o acórdão, os elementos reunidos vão além de uma simples ligação da investigada com outros suspeitos.
A decisão aponta que Lilia seria uma agente de linha de frente, responsável pelo contato direto com as vítimas, pela criação de uma relação de confiança, pelo envio de links fraudulentos e por manter as pessoas ao telefone enquanto outros integrantes acessavam as contas bancárias.
A relatora também considerou relevantes os áudios relacionados às abordagens, à troca de chips, à preocupação com bloqueios no WhatsApp, à exclusão de mensagens e à divisão dos valores obtidos nos golpes.
Com isso, a Quarta Câmara Criminal do TJMT decidiu manter a prisão domiciliar da estudante.