Em 2014, o Brasil prometeu ao mundo arenas modernas, cidades transformadas e um legado que duraria décadas. Doze anos depois, algumas dessas promessas envelheceram melhor que outras.
Enquanto certos estádios se consolidaram como centros de eventos, lazer e entretenimento, outros seguem lutando para justificar os bilhões investidos. E é justamente essa diferença que ajuda a entender um conceito famoso no urbanismo: o temido “elefante branco”.
Segundo Marcelo Monteiro, professor de Arquitetura e Urbanismo da Estácio, construir uma obra impressionante é apenas metade da missão.
“O verdadeiro teste de um projeto é o seu ciclo de vida. Quando grandes arenas são construídas sem um plano claro para o futuro, aquilo que parecia um patrimônio pode rapidamente se transformar em um problema”, explica o especialista.
O problema não era construir. Era saber o que fazer depois.
Durante a Copa do Mundo, o foco estava nos jogos, nas transmissões internacionais e nos estádios novinhos em folha. Mas quando o campeonato acabou e as seleções foram embora, surgiu a pergunta que muita gente esqueceu de fazer antes:
Quem vai usar tudo isso daqui para frente?
Em algumas cidades, a resposta nunca ficou muito clara.
É o caso da Arena da Amazônia e do Estádio Nacional Mané Garrincha. Apesar dos investimentos bilionários, ambos enfrentam dificuldades para manter uma agenda constante de eventos capaz de cobrir seus custos operacionais.
Sem clubes locais com grande capacidade de atrair público regularmente e sem uma programação intensa de shows e eventos, essas estruturas acabam consumindo recursos apenas para continuar funcionando.
Em linguagem menos técnica: viram despesas permanentes.
Nem todo estádio virou problema
Por outro lado, algumas arenas conseguiram encontrar um caminho mais sustentável.
O Mineirão e o Estádio Beira-Rio são exemplos frequentemente citados por especialistas.
A diferença? Eles estão inseridos em regiões com forte cultura esportiva, recebem eventos regularmente e fazem parte de áreas urbanas que já possuíam infraestrutura consolidada.
Na prática, não dependem exclusivamente do futebol para sobreviver.
Além dos jogos, esses espaços recebem shows, feiras, eventos corporativos e diversas atividades que ajudam a manter as contas em equilíbrio.
O que isso ensina sobre as cidades do futuro?
Para Marcelo Monteiro, a principal lição deixada pela Copa não está na arquitetura dos estádios, mas no planejamento urbano.
Segundo ele, uma obra pública precisa ser pensada para décadas, e não apenas para o evento que motivou sua construção.
Hoje, arquitetos e urbanistas precisam analisar fatores como:
- impacto econômico;
- viabilidade financeira;
- integração com a cidade;
- uso contínuo dos espaços;
- benefícios reais para a população.
Afinal, fachada bonita rende foto. Mas planejamento inteligente evita que a conta continue chegando por décadas.
O legado que ainda está em jogo
Doze anos depois da Copa, o Brasil continua aprendendo uma lição importante: construir é relativamente fácil. Difícil é garantir que a obra continue fazendo sentido quando os refletores se apagam.
Entre arenas que prosperaram e outras que se transformaram em desafios financeiros, o legado de 2014 segue servindo como um grande estudo de caso sobre como cidades podem — ou não — planejar seu futuro.
Porque, no fim das contas, um estádio vazio custa muito mais do que apenas dinheiro. Ele também revela o preço de decisões tomadas sem pensar no dia seguinte.