Hoje muita gente reclama do Fies. E com razão: dívida alta, inadimplência, renegociação, Desenrola, boleto infinito e o famoso “eu só queria estudar”.
Mas pouca gente lembra que, há dez anos, o programa literalmente caminhava para um colapso.
E não é força de expressão dramática de documentário político da Netflix.
Entre 2010 e 2015, o Fundo de Financiamento Estudantil explodiu em tamanho, custo e desorganização. O número de contratos saltou de cerca de 200 mil para aproximadamente 2 milhões. Enquanto isso, o custo fiscal do programa saiu de R$ 1,9 bilhão para mais de R$ 29 bilhões.
Sim. O Fies cresceu num ritmo tão acelerado que parecia startup recebendo investimento sem ninguém perguntar “e como isso vai se pagar?”.
O problema nunca foi o acesso à faculdade
A ideia do programa sempre foi importante:
ajudar estudantes de baixa renda a entrarem no ensino superior.
O problema estava no modelo.
Segundo os autores do artigo, três grandes falhas começaram a sufocar o programa:
- o risco financeiro ficava quase todo nas costas da União;
- os subsídios tinham baixa transparência;
- a governança era incapaz de controlar a expansão.
Na prática, o sistema incentivava crescimento sem responsabilidade.
As instituições privadas praticamente não dividiam o risco.
Muitos estudantes enxergavam o financiamento como uma bolsa.
E a inadimplência começou a subir num nível completamente insustentável.
Em vários contratos, o índice ultrapassava 40%.
Traduzindo:
quase metade das pessoas não conseguia pagar depois.
O Fies virou um problemão fiscal
O cenário começou a preocupar seriamente o governo ainda em 2015.
Segundo o texto, a então secretária-executiva do MEC, Maria Helena Guimarães de Castro, levou o problema diretamente para a equipe econômica do Ministério da Fazenda.
Foi aí que nasceu a ideia de reformular completamente o programa.
E, convenhamos:
quando MEC e Fazenda começam a conversar em tom preocupado, normalmente significa que alguém encontrou um incêndio escondido atrás da planilha.
O que mudou na reforma do Fies?
A reestruturação feita entre 2016 e 2017 mudou profundamente o funcionamento do programa.
A reforma teve três pilares principais.
1. Pagamento vinculado à renda
O novo modelo tentou aproximar o pagamento da realidade financeira do estudante.
A lógica passou a ser:
“não adianta cobrar como se todo recém-formado saísse da faculdade virando CEO.”
Também acabou a carência longa que existia antes, e os estudantes passaram a ter participação financeira mais ativa durante o curso.
O objetivo era reforçar que o Fies era financiamento — não bolsa gratuita disfarçada.
2. Compartilhamento do risco
Antes, praticamente todo o prejuízo recaía sobre o governo federal.
A reforma criou o FG-Fies, um fundo garantidor que passou a dividir os riscos entre União e instituições de ensino.
Ou seja:
as faculdades também passaram a ter mais responsabilidade sobre o modelo que ajudavam a expandir.
Uma ideia relativamente simples:
se todo mundo ganha com o financiamento, todo mundo também assume parte do risco.
3. Mais controle fiscal
A reforma também criou mecanismos de planejamento e governança para evitar novas explosões de gastos.
Entre as mudanças:
- criação de um Comitê Gestor;
- planejamento trienal;
- maior transparência sobre subsídios;
- definição mais clara dos custos do programa.
Basicamente:
o governo percebeu que talvez fosse importante saber quanto estava gastando antes de descobrir isso depois.
E o Desenrola Fies prova isso?
Segundo os autores, sim.
O texto afirma que o próprio Desenrola Fies acabou servindo como evidência prática dos problemas do modelo antigo.
A necessidade de renegociar bilhões em dívidas com descontos gigantescos mostra justamente o tamanho do passivo acumulado antes da reforma.
E um detalhe importante:
grande parte dessas dívidas renegociadas ainda pertence aos contratos antigos.
Ou seja:
o governo atual está basicamente limpando a bagunça deixada pelo desenho anterior do programa.
O Fies ficou perfeito?
Nem de longe.
O programa ainda recebe críticas, enfrenta desafios e continua dependendo de ajustes constantes.
Mas os autores defendem que a reforma evitou algo pior:
a inviabilidade completa do financiamento estudantil federal.
E, olhando para trás, o argumento faz sentido.
Porque um programa com inadimplência gigantesca, custo fiscal explosivo e expansão sem controle provavelmente não sobreviveria por muito mais tempo.
A grande lição da história
O caso do Fies virou quase uma aula prática de política pública brasileira:
- ampliar acesso é importante;
- mas ignorar sustentabilidade financeira cobra a conta depois;
- e quando essa conta chega… normalmente ela chega parcelada em 150 vezes.
No fim, o Fies continuou existindo.
Só que num modelo mais controlado, menos explosivo e com regras mais rígidas.
E talvez isso explique por que, dez anos depois, o debate deixou de ser:
“o programa vai acabar?”
…e passou a ser:
“como impedir que ele vire outro problemão no futuro?”